Balada da Neve

de: Augusto Gil.

Batem leve, levemente,

Como quem chama por mim.

Será chuva? Será gente?

Gente não é, certamente

E a chuva não bate assim.

**

É talvez a ventania:

Mas há pouco, há poucochinho,

Nem uma agulha bulia

Na quieta melancolia

Dos pinheiros do caminho…

**

Quem bate, assim, levemente,

Com tão estranha leveza,

Que mal se ouve, mal se sente?

Não é chuva, nem é gente,

Nem é vento com certeza.

**

Fui ver. A neve caía

Do azul cinzento do céu,

Branca e leve, branca e fria…

-Há quanto tempo a não via!

E que saudades, Deus meu!

**

Olho-a através da vidraça.

Pôs tudo da cor do linho,

Passa gente e, quando passa,

Os passos imprime e traça

Na brancura do caminho…

**

Fico olhando esses sinais

Da pobre gente que avança,

E noto, por entre os mais,

Os traços miniaturais

Duns pezitos de criança…

**

E descalcinhos, doridos…

A neve deixa inda vê-los,

Primeiro, bem definidos,

Depois, em sulcos compridos,

Porque não podia erguê-los!…

**

Que quem já é pecador

Sofra tormentos, enfim!

Mas as crianças, Senhor,

Porque lhes dais tanta dor?!…

Porque padecem assim?!…

**

E uma infinita tristeza,

Uma funda turbação

Entra em mim, fica em mim presa.

Cai neve na Natureza

– e cai no meu coração.

**************************

Esta, me lembra os tempos de escola, já minha mãe a sabia de cor, e sempre que me via folheando o livro começava a recitá-la, ainda hoje, aos 84 anos a sabe inteira de cor.

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